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A história da IPA que todo mundo conhece pode ser mentirosa

Juliana Simon

19/06/2019 10h11

(Crédito: Thorn Brewing)

Para os apaixonados por cerveja, além do copo, o que fala forte ao coração são as histórias sobre a bebida. Uma das mais alardeadas por aí, talvez pela popularidade do estilo, é a da origem da India Pale Ale, a famosa IPA – "ipinha" para os íntimos.

Está na ponta da língua de sommeliers (formados ou pretensos) e muitos comentaristas de plantão por esse mundão da internet: era um problema levar as cervejas britânicas para a colônia Índia (daí o nome da criação final), já que elas não conseguiriam resistir aos seis meses de viagem com frescor.

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Eis que meados de 1780, um cervejeiro londrino chamado George Hodgson, da Bow Brewery, teria inventado uma cerveja com mais lúpulo e mais alcoólica, que "envelheceria" com qualidade nos barris. Com o tempo a receita ficou mais clara e refrescante para agradar quem estivesse no calorão do país asiático.

Quase 200 anos depois, cervejeiros norte-americanos redescobriram o estilo, colocaram seus potentes lúpulos na receita e o resto é história…

Porém (ah, porém)…

A trama é muito bonitinha e didática, mas não há evidências de que seja verdadeira. Muito pelo contrário: as pale ales já seriam exportadas para a Índia pelo menos cem anos antes da cerveja mais lupulada de Hodgson e já em 1760 entendia-se que era bom negócio colocar mais lúpulo na receita exportada para países quentes.

Reza a lenda que a proximidade da Bow dos navios que iam para as colônias deu uma enorme vantagem às brassagens de Hodgson e seu filho em detrimento das potentes stouts de Burton on Trent – berço da escola inglesa de cerveja.

Na época, as IPAs não eram tão fortes e continham, no máximo 6,5% ABV (hoje podem chegar a até 7,5%). Também não eram bombas de lúpulo como as que a gente conhece hoje.

Dizem que a IPA era um pedido de soldados e civis britânico residentes da Índia que não conseguiam tomar nada mais potente, mas as exportações da época e de anos depois indicam que quem estava fora preferia mesmo a boa e velha porter com "gostinho de casa" – estilo que Hodgson exportava junto com as "pale ales".

Nem mesmo a Bow Brewery, ou Hodgson, cravaram a bandeira em cima do nome East India Pale Ale e foi só em 1869 que a lenda ganhou força com um jornalista chamado William Molyneaux, que disse que a "opinião popular" acreditava no pioneirismo da IPA nesta cervejaria média de Londres.

Então de onde veio a IPA?

Menos que a criação de uma pessoa só, o palpite é que as pale ales inglesas com mais lúpulo foram se desenvolvendo em brassagens de muitos outros produtores da época e muito "ao gosto do freguês". Então cravar uma paternidade é, no máximo, uma ótima narrativa para inspirar qualquer marqueteiro das cervejas.

P.S1: Para essa e outras quedas de mitos cervejeiros, vale vasculhar o blog do jornalista britânico Martyn Cornell, Zythophile – que quer dizer "amor pela cerveja" <3

PS 2: A ideia desse texto veio de um leitor que me questionou sobre a história das IPAs no Facebook: sua pergunta pode ser a mesma do coleguinha. Não hesitem em mandar dúvidas, ideias, ok? OK 🙂

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Sobre a autora

Juliana Simon é jornalista do UOL, sommelière de cervejas, mestre em estilos e especialista em harmonização pelo Instituto da Cerveja Brasil.

Sobre o blog

O Siga o Copo é espaço para dicas, novidades e reportagens para quem já adora ou quer saber mais sobre o universo cervejeiro e de mais bebidas.