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Defeitos em reality incomodam e fazem pensar: cerveja combina com TV?

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Juliana Simon

23/11/2017 13h54

Pano pra manga é o que não falta no Eisenbahn Mestre Cervejeiro. A gente se empolgou, pediu mais meninas cervejeiras da disputa e tá lá vendo quem vai ser o campeão. Mas para quem faz cerveja em casa, o reality tem sido uma decepção.

Os defeitos das amostras apresentadas nos três primeiros capítulos deixaram muito mestre das panelas de cabelo em pé.

Os chamados "off-flavours" (pardon a beerchatice) foram variados. Falta de carbonatação (sem gás), clorofenol (sabor de esparadrapo), diacetil (gosto amanteigado) e ester de levedura foram alguns problemas evidentes para Douglas Littig, cervejeiro caseiro, sommelier e mestre em estilos.

O Siga o Copo foi atrás para saber o que tem rolado nas panelas estreladas do reality.

Produção na correria

O regulamento do concurso, com prazos mais apertados que os dos últimos anos por conta do reality (inscrições de 10 a 17 de julho e envio de cervejas até 31 de julho), foi duramente criticado nas redes sociais, principalmente pela exigência de muitas garrafas (8 de 600 mil e depois mais 12 no caso de uma ida para a segunda etapa) em cerca de um mês – o regulamento foi revelado no 1º dia de inscrições.

Nos posts, candidatos se assustam com o total de 20 garrafas caso tivessem sido bem avaliados e a empresa afirma que os pré-selecionados podiam ficar tranquilos, pois haveria tempo hábil para realizarem essa segunda leva e que a prioridade era qualidade da cerveja.

Segundo participantes do concurso, não foi bem assim. A empresa diz que foram aproximadamente 25 dias para a segunda produção. Os candidatos citam de 19 a 20 dias – na pressão e condição para estarem dentro do reality.

Tempo é dinheiro, mas cerveja…

De qualquer maneira, para quem sabe fazer cerveja, até mesmo o prazo relatado pela cervejaria abre margem para problemas.

Douglas afirma que carbonatação e diacetil poderiam ser resolvidos em 27 dias (e o justo seria, pelo menos, 30): um para brassagem, 7 para fermentação, 2 para descanso de diacetil, 7 dias de maturação e 10 dias de garrafa para carbonatar. "Para entregar com 25 dias, alguma parte do processo foi negligenciada", afirma.

"Clorofenol foi erro no processo, resíduo de cloro, algo do tipo. Os ésteres o cervejeiro deve ter fermentado a temperatura mais alta para agilizar", diz Douglas, supondo o que pode ter acontecido nas demais amostras.

Pré-seleção além da cerveja

Um outro ponto que deixou muita gente intrigada foi a seleção. O regulamento previa que, após a avaliação sensorial das centenas de amostras, as cervejas aprovadas foram submetidas a um segundo teste, por um corpo técnico, que selecionou 30 finalistas. Nove deles foram para o programa, aprovados pela EndemolShine sob critérios como desenvoltura, fotogenia, disponibilidade para as gravações, capacidade de comunicação e perfil.

Na TV, só queremos gente bonita e desenvolta, claro, mas isso não faz o concurso perder sua principal função, que é a de premiar a melhor cerveja?

Para a cervejaria, o reality foi além: em resposta oficial, a Eisenbahn afirma que "é importante ressaltar que, para a edição deste ano, o candidato precisou demonstrar outras habilidades além de produzir uma boa cerveja caseira. Os participantes tiveram de demonstrar, por exemplo, conhecimento em harmonização, serviço e conhecimento de matérias primas como maltes e lúpulos".

No fim das contas, reality animou os caseiros?

Quem se dedica a receitas caseiras, está bastante frustrado com a qualidade desta etapa final do concurso. "Em geral, no início, sempre tem cerveja com defeito, mas na final só tem boa. Muito boa!", diz Douglas, que disse estar decepcionado e não acompanha mais o programa.

Quem não se arrisca nesse mundo da produção, fica com a sensação de que é bom ter um reality para chamar de seu, como dizia um post deste blog, mas que a cerveja é a protagonista e deveria ter sido melhor cuidada.

Agora na metade do programa, o público poderia estar mais avisado das condições do reality para entender por que os que estão lá são ou não os melhores cervejeiros caseiros do país. (E ninguém é obrigado a pegar um regulamento de 12 páginas para saber disso, né?).

Entre a responsabilidade de um concurso e a produção de um reality, a Eisenbahn pode estar arriscando o futuro dos dois.

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Sobre a autora

Juliana Simon é jornalista do UOL, sommelière de cervejas, mestre em estilos e especialista em harmonização pelo Instituto da Cerveja Brasil.

Sobre o blog

O Siga o Copo é espaço para dicas, novidades e reportagens para quem já adora ou quer saber mais sobre o universo cervejeiro e de mais bebidas.