Siga o copo

PUBLICIDADE
Topo

Siga o Copo

Por que uma colheita de lúpulo deveria ser seu próximo sonho cervejeiro

Conteúdo exclusivo para assinantes

Juliana Simon

20/03/2018 11h21

O que é mais gostoso: um prato temperado com pozinhos processados ou com ervas frescas recém-colhidas de uma horta? No mundo da cerveja, a resposta é a mesma. O tempero, no caso, se chama lúpulo e você já cansou de vê-lo idolatrado por aqui.

Uma das primeiras que aprendemos nos cursos de cerveja é que lúpulo bom é lúpulo americano ou europeu. Não é segredo: a trepadeira e suas florzinhas se dão bem em clima fresco, carregam tradição no Velho Mundo e são o grande ícone da escola cervejeira dos EUA – marcada pela paixão 'hop" (lúpulo, em inglês).

Veja também

O que muita gente abaixo da linha do Equador não imagina é que alguns cervejeiros já conquistaram o sonho do lúpulo próprio. A convite da Cerveza Patagonia, esta blogueira teve a oportunidade de participar da colheita anual – sempre no fim do verão – e conhecer variedades da flor, tudo direto da chácara em Fernández Oro, na Argentina.

A colheita

Não, não é só correr pelas trepadeiras e arrancar as flores, colocar num cestinho e sair alegremente. Da plantação à panela, muito trabalho braçal. Como se fossem destaques de uma escola de samba, dois funcionários ficam num caminhão munidos de facões e cortam as cordas em que estão penduradas as plantas. Estas caem numa espécie de caçamba.

Dica: nunca vá com muito ímpeto à trepadeira. Só de passear entre a plantação, mini arranhões surgem nos braços. Amar lúpulo arde um tanto.

Essa é a hora de pegar as flores, abrir delicadamente e sentir o mundo de aromas que cada variedade carrega: 'Victoria', 'Mapuche' (um herbal que nenhum nariz esquece), 'Nugget', 'Traful' e 'Nahuel' – estes dois últimos colhidos especialmente para a produção da IPA da cervejaria  – que é diferente de qualquer outra que eu já tenha provado fresca.

O varal de lúpulos

Saídas dos campos, as flores ainda em galhos vai para um "banho". Perde-se galhos, folhas, caules, sobram lúpulos, lúpulos e mais lúpulos. Tem quem não resistisse a mergulhar na piscina desse ouro verde.

Da "limpeza", para o ensaque, para os tanques, somente algumas horas. E o que isso garante? O sonho da cerveja de frescor mais impressionante que o paladar pode sentir.

Mas… que diferença isso faz na sua vida?

Este post não é para causar inveja – colher lúpulo, provar cervejas recém-produzidas, comidas preparadas com clima patagônico, dormir em barracas colocadas em plena plantação de lúpulo, jantar com essas lindas trepadeiras iluminadas em uma noite de chuva e acordar vendo o céu abrir aos poucos e aquele verde gritando, e o aroma…(pensando bem… sim, é uma experiência que deixaria qualquer um encantado).

Jantar dentro de uma plantação de lúpulo

Mas o que fica é um apelo para o bebedor cervejeiro olhar com mais carinho para o que temos tão mais próximo, tão mais bem conservado, tão menos maltratado pelas importações continentais.

No Brasil, surgem com mais relevância algumas plantações de lúpulo, porém ainda menores que os 30 hectares da Patagônia. E a esmagadora maioria não conta com a flor fresca e sim pellets.

De qualquer maneira, assim como aquele seu temperinho de estimação da horta da cozinha, há de se valorizar e se incentivar que mais matéria-prima cervejeira seja estudada, desenvolvida, produzida e alardeada entre as cervejarias de todos os portes.

Somos apaixonados pelas tradições do norte e continuamos bebendo dos estilos e história de quem abraça a bebida há séculos, mas na hora de saborear o que há de mais fresco, vale abrir o coração para o sul.

(Fotos: Divulgação/Cerveza Patagonia e Juliana Simon)

Sobre a autora

Juliana Simon é jornalista do UOL, sommelière de cervejas, mestre em estilos e especialista em harmonização pelo Instituto da Cerveja Brasil.

Sobre o blog

O Siga o Copo é espaço para dicas, novidades e reportagens para quem já adora ou quer saber mais sobre o universo cervejeiro e de mais bebidas.